Racismo: o tempo ainda não fechou

06 - 07 - 2015

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 Na última sexta-feira (03), uma onda de comoção invadiu a timeline de pretos e brancos e quebrou a internet nacional. Maria Júlia Coutinho, nossa “super power blaster” garota do tempo do horário nobre foi (mais uma vez) alvo de racismo nas redes sociais do Jornal Nacional, com os mais tenebrosos tipos de ofensas, que nem valem citarmos aqui. O caso gerou uma indignação geral, o que também não era para menos. Celebridades, anônimos, profissionais do jornalismo todos “tornaram-se Maju” a partir daquele momento.

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Mas só a partir daquele e naquele momento? O que sinto, é que depois das 24 horas do noticiado, me vejo saindo de uma daquelas partidas de futebol que o Brasil perde ou após a apuração injusta de um desfile de escola de samba: muita indignação, frisson e pouca ação. Para mim, ficou a pergunta: o que essa grande fatia de brasileiros “revoltados com toda essa situação do país” (e com seu jogo de Le Creuset amassado) fazem para que toda essa situação acabe? Batem bravamente no peito e dizem que “até tem amigos negros”? Amam de paixão e tem respeito por suas babás e funcionárias do lar que cozinham e limpam suas casas por mais de 20 anos?

É, muitos encaram lidar com o negro como um ato filantrópico e param por aí. Provavelmente eles não percebem a nossa importância estampando a capa de uma revista ou na campanha de sua marca favorita. Encaram com muita naturalidade o fato de nunca sermos os protagonistas de nossas histórias – na ficção e na vida real – a não ser que estejamos nos tradicionais papéis de subordinação. Não respeitam nossos traços e as nossas culturas ancestrais, sem levarmos pedradas. Apoiaram a redução da maioridade penal e jamais compreendem que isso é só uma forma muito mais confortável de exterminar a população jovem, preta e pobre.

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Ah, certamente eles também nunca pararam para analisar por outro viés a importância das cotas para alguém que após “liberto” da escravatura não contou com nenhuma política social de inclusão e viu-se de pés descalços e bolsos vazios. Afinal, nunca pensou que por durante muito tempo não éramos considerados parte da sociedade, mas sim como escórias.

Nos reduzirmos ao pensamento que #SomosTodosMaju, não gera o questionamento necessário em torno de todas as dores (e poucas delícias) de ser negro no Brasil. Não nos coloca na frente de milhares de problemas derivados da injúria racial e do racismo, que tanto nos dilaceram. Não faz com que as pessoas tenham em mente que essa não será a primeira e nem a última vez que esse tipo de crime está sendo cometido, enquanto não for de fato encarado como CRIME.

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Sim, ainda podemos ser “todos Majus”. Mas também temos de ser todos Glorias Marias, Miltons Gonçalves, Zileides Silva, Elzas Soares e Ruths de Souza. Somos todos eu, você e milhões de negros brasileiros, que de bronzeados não temos nada, mas queremos mostrar o nosso valor, talento e competência.