Fricotes à parte…

11 - 05 - 2015

mequetrefismos-textos-racismo-e-historia-nacional

Durante o último carnaval, em um desses bailes “bacanudos”, com toda a gente fina, elegante e sincera do Rio de Janeiro, lembro-me de ter tocado Fricote (“Nega do cabelo duro, que não gosta de pentear…”), hit de Luiz Caldas dos anos 80. Estava acompanhada de um amigo gringo e falei para ele que não gostava dessa música. Curioso, pediu para que eu traduzisse o que aqueles versos com um ritmo tão animado e envolvente queriam dizer. Com um olhar espantadíssimo, a primeira reação dele ao ouvir aquela tradução foi: “Que m*rda! Vamos sair daqui agora e beber algo!”.

Sim, lembrei-me da época em que eu e membros da minha família cantávamos aquela música que, até então, era engraçada e cheia de trocadilhos. Inclusive, resgatei do fundo da minha mente, que achava que a “baixa do tubo” dita no canção era o túnel Princesa Isabel(seria uma subconsciente ironia?), que faz a ligação entre Botafogo e Copacabana, na zona sul do Rio de Janeiro. Enfim, coisas de criança…

Dia desses, Fricote e toda a sua polêmica letra de cunho racista e machista vieram à tona novamente. Após uma matéria que noticiava a reação negativa dos frequentadores de uma festa no Rio depois de tocado o hit, uma empoderada amiga abriu sua timeline para um fervorosa discussão sobre racismo e nossos registros culturais.

Se de um lado, tinha a turminha do “não levemos a vida tão a serio” ou do “tudo é pretexto para ser racismo”, de outro, muita gente “enlargueceu a roda” de forma esclarecedora, mesmo encarando que o som não seja motivo para ofensas.

Entre uma das coisas que aprendi e que me chamou muita atenção, é que na Bahia “o não gosta de pentear” faz alusão a uma mulher que não se curva aos caprichos do branco, que resiste aos padrões de beleza femininos impostos. Mas diante dos aprendizados, também observei o quanto é natural para alguns, encarar o cabelo crespo como “duro” e “ruim”, afinal, aprendemos essas denominações desde criancinha, não é verdade?

Pois é, 2015 está aí e agora o oprimido tem voz. Se os pequenos sabem distinguir e identificar um “cabelo duro”, é porque eles estão reproduzindo o discurso racista de um adulto. Falar assim das nossas madeixas não tem bom-humor, muito menos graça nenhuma! Causa muita dor e mal-estar, amigo!

Por quanto tempo nós mulheres não fomos escravas de métodos alisantes e químicas que alteram a textura dos fios para sermos “aceitas”? Por quanto tempo também não nos vimos complexadas por nossos narizes largos e lábios grossos que quase nunca são estampados nas principais capas de revistas? Quantos de nós já não ouvimos relatos de irmãos, amigos e familiares que foram abordados em blitz e levaram tapa na cara a troco de nada, por simplesmente serem negros? Cota?! Para alguns, é um retrato de uma incapacidade e não de uma dívida histórica  que alavancou em toda essa cadeia de desigualdade.

6df6a4888762662921e242f5113a2a67

Assim como em “Fricote” e no registro de uma cultura nacional embalada ao som de o “Teu Cabelo Não Nega” ou pela imagem do Tião Macalé, preto, cachaceiro, desdentado e satirizado, não podemos mudar o passado, mas podemos reverter totalmente o nosso futuro. É importante sim a valorização do estudo da cultura afro-brasileira nas escolas, sem sermos os protagonistas apenas do capítulo sobre a escravidão. Queremos e precisamos saber quem são os nossos heróis e heroínas, mostrar para todo mundo como a cultura vinda de nossos ancestrais influenciou hábitos e costumes de toda uma sociedade. Isso é extremamente importante, independentemente da sua cor.

Queremos mais pretos nos tribunais de justiça. Não nos bancos dos réus, mas como advogados, juízes e desembargadores. E isso, não se constrói de um dia para o outro, exige muito preparo, estudo e um esforço máximo em educação, que mostre que esse negro é capaz de conquistar o mundo. Precisamos de mais professores com esse potencial transformador, não tomando paulada, como vimos em Curitiba.

Assim como na vida real, queremos assumir nas novelas, filmes e publicidades o papel de médicos, engenheiros e designers. Na moda, queremos (e precisamos estar) em número cada vez maior nos editoriais, cruzando as passarelas, na fila “A” e na imprensa.

Ah, a lista de exigências não para por aqui: desejamos mais e mais produtos de beleza que exaltem a nossa cor e o volume da nossa cabeleira, que ao longo de toda a história nos pediram para que fossem negligenciados.

A ideia aqui não é a de apagar o lado mais ignorante do nosso passado, mas é olhar para trás, vermos os milhares de erros já cometidos, se posicionar e pensar no que ainda é preciso evoluir em prol da conscientização e da valorização da nossa cultura que é linda, rica e poderosa. Já demos alguns passos e mesmo que, infelizmente, alguns ainda encaram o racismo como forma de “mimimi”, a turminha está entendendo o nosso recado. Queremos e teremos ainda mais voz e presença – longe dos estereótipos que nos foram atribuídos.

Ignorância e “inocência”? Daqui para frente, não aceitaremos mais!