Etiqueta negra

02 - 03 - 2016

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Você chega lindx e negrx, desfilando a sua trança, twist, marley ou black, quando vem aquele elogio acompanhado daquela pergunta mequetrefe (!): “Uau, que lindo! Mas esse cabelo é todo seu mesmo?”.

Eu passo por isso praticamente todos os dias da minha vida. Acho que a sua pessoa, caso seja donx de um afro, também. Apesar de saber que “não sou obrigada a nada”, o bom humor é a minha saída (ressalto que é A MINHA, pois cada tem a sua forma de reagir e não julgo nenhuma delas) e costumo responder que é todo meu, pois veio na fatura de crédito com o câmbio do dólar a R$4,20. Depois dessa, não tem como ele não ser meu mesmo e os sorrisinhos amarelos de canto da boca começam a aparecer…

Em uma conversa com uma amiga, estávamos comentando sobre essa invasiva “indelicadeza de cada dia” e chegamos a uma conclusão: caso vejamos alguém com um sorriso lindo na rua, alguém se dispõe a perguntar se é dentadura? Para aquela pessoa um pouco mais velha, sem rugas ou marcas de expressão, questionamos se tem botox? Ou até mesmo as madeixas loiras e lisas de uma mulher branca, alguém sai botando a mão (calma, chegaremos nessa etapa), retrucando se é ou não dela, de tão bem cuidado que está? Nos limitamos a elogiar e só!

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Diante da “Geração Tombamento” (se não conhece, leia mais aqui ), que faz do empoderamento estético um pilar importantíssimo na construção da nossa autoestima, as pessoas precisam aprender cada vez mais que um dos grandes trunfos do nosso cabelo crespo é a versatilidade. Em uma semana podemos ser lisxs, descoloridxs, com um black  “au naturel” cor de rosa… e quando tudo cansar, raspa a careca!

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Voltando ao assunto “colocar a mão”, o cabelo afro muitas vezes parece um “território de ninguém”, onde alguns deliberadamente se acham no direito de tocar, pois é algo “exótico”. Será que eles já experimentaram encostar na obra de arte de um museu, sem autorização? Não preciso nem explicar mais…

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O nosso empoderamento-tombamento, também criou uma nova categoria profissional: os “comentaristas de cabelo afro”. São pessoas que insistem em palpitar sobre o que você tem que fazer com o seu picumã. “Por quê você não faz colorido?”, “Deixa ele black!”, “Clareia como a Beyoncé!”. As adeptas do “Big Chop” sofrem ainda mais. Além dos olhares de estranhamento diante de um período de transição e aceitação que afetam diretamente a autoestima dessa mulher (sim, para nós essa conta é infinitamente mais cara do que para os rapazes), lidar com comentários do tipo “Como assim você fez isso!!!”, “Não acredito!”, “Cortasse um pouco menos!” é com um tiro no pé – ou no black.

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Meu caros, é claro que sugestões são bem-vindas. Porém, saiba a hora e o momento certo de fazê-las. Já tem gente demais querendo comandar o curso de nossas pretas vidas.

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E para os que insistem em não se adequar a nossa “etiqueta negra”, me venham menos com os seus “mimimis” do que consideram o tal vitimismo e cheguem mais com a sua empatia e educação.

PARA VER TAMBÉM:

Convoque o seu afro

Carta para um cabelo crespo