Brasil, (não) mostra a sua “blackface”

31 - 07 - 2015

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Oi julho,

Tudo bem?

Estou a lhe escrever, pois queria expressar que você foi um pouco ingrato. Não, não estou falando em Vênus retrógrado, “melador dos amores” e muito menos da alta do dólar, “melador” da economia e das viagens alheias. Falo por nós, pretos.

Tudo começou com uma “tempestade” chamada Maju. A garota do tempo do Jornal Nacional foi alvo de racismo na fanpage do noticiário e, prontamente, a sociedade brasileira transformou-se na hashtag “Somos Todos Maju”. Viramos Maju, mas não viramos os meninos e meninas que ficam em nossos sinais diariamente, não somos os menores que precisam muito mais de escolas do que de cadeias e também nem sequer refletimos na ação dos “justiceiros” que cresce em todo o país.

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É, mês 07, você também pregou para gente mais outra peça: o caso Milleni Bezerra. A linda persona da noite carioca com seu icônico black power azul viu sua imagem circular pela internet (sem autorização prévia) com a seguinte legenda: “Nunca vi um smurf com black power”. A comoção ocorreu, mas veio acompanhada de ironia, desdém e comentários do tipo “ela não é tão negra assim”, “o que racismo tem a ver com isso ?!” ou “deve ser maneiro por fogo, né?!”. E a culpa é de quem? Do vitimismo, do “tudo agora é racismo”.

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Ok, ainda não está satisfeito?!

Relembremos mais um evento: Michel Teló e sua “blackface”. Em uma tentativa um tanto equivocada de se manifestar “contra qualquer tipo de preconceito”, o cantor do hit-chiclete “Ai, Se Eu Te Pego” cometeu uma gafe daquelas e postou uma foto com parte do rosto pintado de preto, o que remete à antiga técnica teatral usada para representar personagens negros nas peças – sempre de forma ironizada. Claro que a repercussão foi a pior possível – como era de se esperar – e Teló assumiu o desconhecimento sobre o termo. E o que somos no final disso tudo? CHATOS!

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Casos como o da Milleni e o do Michel só nos mostram a ignorância da nossa sociedade quando tratamos de assuntos como colorismo, blackface e demais questões raciais, que tanto querem nos silenciar como se fosse “um problema para depois” – e não é. O estudo da cultura afro-brasileira nas escolas e trazer à tona essas discussões como algo que nos pertence faz-se essencial para que não dividamos cada vez mais nossa população e para que consigamos trazer cada vez mais esclarecimentos. Dessa forma, vamos evitar que “homenagens” não se transformem em verdadeiros mal entendidos.

Assim como diz os versos da MC Carol em “Não foi Cabral”, precisamos deixar de lado a visão eurocêntrica sobre o que é o Brasil e incluir em nosso aprendizado alguns heróis e heroínas como Tereza de Benguela, Dandara e Abdias do Nascimento. Mas isso não acontece em questão de um mês. Leva o tempo necessário para que essa nova geração de negros ainda presente nas universidades se tornem agentes transformadores e mudem a história de nossas apostilas e materiais de estudo. Mais professores, como o exemplo do Juarez Xavier da UNESP de Baurú, alvo de ofensas racistas escritas no banheiro da instituição, e alunos negros nas escolas e universidades são símbolos de resistência! Também temos o direito de escolher o que queremos do nosso futuro.

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Tereza de Benguela

Tudo bem julho, não posso ser totalmente injusta contigo. Você nos presenteou com um momento histórico no país, que foi a Marcha do Orgulho Crespo, realizada em São Paulo, e com fôlego de sobra para invadir as ruas de todo o Brasil. Ok, sempre tem aqueles que vão falar que é bobagem, besteira e não muda nada. Mas, certamente, esses que perdem seus belos tempinhos reclamando e questionando a importância de uma mobilização como essa, não sabem o quanto sofremos desde a nossa infância, com a cruel ditadura da mídia, que insiste em nos dizer que os nossos cabelos são “ruins”, “duros”, que precisam ser “domados”. Quantxs de nós vivemos 20, 30, 40, 50 e até mais anos de nossas vidas, sem conhecer a real textura dos nossos fios?

Marcha do Orgulho Crespo (Foto: Larissa Isis)

Marcha do Orgulho Crespo (Foto: Larissa Isis)

Pois é, apesar de no último dia 25 ter sido o Dia Internacional da Mulher Negra, você não foi um dos meses mais generosos conosco. Pelo menos serviu para colocarmos a mão nessa nova ideia de consciência e juventude e sermos otimistas o suficiente para pensarmos que os próximos serão melhores.

Atenciosamente,

Luiza