Convoque o seu afro

10 - 06 - 2015

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Sempre tive muita vontade de raspar as laterais do cabelo. Lembro-me que ali em 2010, quando via umas lindas de cabelo liso com o tal corte, admirava e sempre pensava “quero fazer algo assim”.

Mas, naquela época, antes de bater a real vontade de passar a máquina nas madeixas, eu desistia, o desejo passava. Passava, pois logo vinha os questionamentos “e o dia que eu enjoar e quiser deixar o cabelo crescer, como vai ser?”, afinal sempre pregavam que os nossos fios não permitiam mudanças radicais. Passava, pois tinha medo de “tocar no intocável” e alterar a textura do meu cabelo, que após aquelas pequenos, porém venenosos “sustinhos de relaxante”, atingia um ápice capilar. Passava, pois tinha gente receosa e que me contagiava de insegurança sobre como ficaria o resultado.

Cinco anos se passaram, a experiência e a consciência me fizeram entender que o cabelo é meu, a experiência é minha e a satisfação pessoal também. Resolvi passar a máquina e não passar mais vontade:

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Talvez, você que tenha os fios lisos, esteja se perguntando: nossa, mas o que há de grande feito nisso? Pode ser algo que nunca entenda, mas mesmo assim vale sempre lembrar que para nós, crespas, lidar com o cabelo da forma que quisermos é algo muito atual e libertador. Após décadas sendo tolidas e censuradas, desmerecidas de sermos loiras, ruivas, azuladas, carequíssimas ou simplesmente naturais, é lindo ver todas essa mobilização e incentivo para que sejamos cada vez mais black, coloridas, descoloridas, raspadas, trançadas, “twistadas”… para que sejamos nós mesmas e todos os eu-líricos possíveis.

Batalha vencida? Em partes. Apesar de toda a beleza que é ver um verdadeiro desfile de afros nas ruas, há quem tente nos convencer que eles só são válidos se forem à base de muita “fitagem” e cachos à la “babyliss”. Caras amigas (e amigos também), não caiam nessa! Do que adianta nos alforriarmos dos alisantes, permanentes e outras químicas altamente destruidoras e nos flagrarmos adeptos de técnicas que nos deixam igualmente escravizados? Seu picumã 4A, B, C…Z é belo e preciosobasta você achar e ter confiança na coroa que carregas. E lembre-se: ninguém tem o direito de te dizer que ele precisa de qualquer tipo de intervenção.

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Principalmente quando falamos em cabelo afro, muita gente acha que tem o direito de opinar sobre o que devemos fazer ou não. Maaaaas, teimosa que sou, acredito piamente no lema que a Diane Lima, Diretora Criativa do No Brasil, disparou na TEDxSão Paulo: se a menina quer deixar o cabelo solto, deixa o cabelo da menina no mundo.

Ilustração: Mahal Pita e Nando Cordeiro

Ilustração: Mahal Pita e Nando Cordeiro

A ideia não é privar e nem julgar ninguém de alisar ou fazer o procedimento capilar que desejar, mas sim de permitir outras inúmeras possibilidades, de ter direito a escolha e a melhor de todas: de se amar e se curtir do jeito que você é. Afinal, não existe nada mais gostoso.

#deixaocabelodameninanomundo

 

 

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